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Copa do Mundo: tensão e esperança convivem em evento inédito

Restrições dos EUA em meio a conflitos geram temor de desistência e, ao mesmo tempo, desafia o futebol a manter sua função de integração

Copa do Mundo 2026 segurança
Questões políticas estão presentes na Copa do Mundo deste ano | Foto: Reprodução/Facebook/Fifa

Juiz somali proibido de entrar nos Estados Unidos. Seleção iraniana sendo obrigada a voltar ao México, depois de cada jogo, para não pernoitar em território norte-americano. Dirigentes iranianos proibidos de acompanharem a delegação. Nunca uma Copa do Mundo teve tantas restrições, por causa de questões políticas, como esta que começou na última quinta-feira, 11.

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Pela primeira vez, o país-sede recebe delegação de uma nação contra a qual está em guerra. Muitos, inclusive, temem pelo futuro da competição, receosos com a possibilidade de alguma desistência ou prisão nos EUA, sede que receberá o maior número de jogos.

Na véspera do começo da competição, enquanto a Força Aérea norte-americana bombardeava a infraestrutura iraniana, pelo menos três fan fests da Fifa celebravam a vida, reunindo, na Cidade do México, em Toronto e em Los Angeles, artistas latinos em um festival de música, ginga e confraternização. Na abertura, no México, a alegria se misturou à revolta de parte da população contrária à realização do evento. Neste cenário contraditório, o desafio é evitar que o futebol, que sempre se misturou à política, não seja, desta vez, contaminado por ela.

Para Barry Wolfe, advogado internacional e criminologista, “estamos vendo agora uma intensificação de tensões que já vinham crescendo há vários anos.” Ele considera que as preocupações com terrorismo, imigração e segurança nacional estão inevitavelmente influenciando grandes eventos internacionais. E cita como causas a guerra na Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio e a disputa estratégica entre os EUA e a China.

“A principal diferença é o ambiente geopolítico”, afirma o jurista a Oeste. “Nunca vimos uma Copa do Mundo ser realizada num contexto em que questões de segurança, imigração, terrorismo, conflitos armados e rivalidades estratégicas ocupassem espaço tão central no debate público.”

No mesmo dia da abertura da Copa, o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçava tomar o controle da Ilha de Kharg, para obrigar o desbloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% da produção mundial de petróleo. A pressão contra o presidente norte-americano tem deixado o ambiente no país, que já foi alvo de atentados como o de 11 de setembro, contaminado pela desconfiança e pelo medo. O próprio Trump, desde antes da eleição de 2024, foi alvo de três incidentes que envolviam atiradores.

“A diferença desta Copa não está apenas nos estádios ou nas seleções. Está no mundo em que ela será realizada”, ressalta Wolfe, que, entre outros, é mestre em Direito Internacional Público pela Universidade de Cambridge. “A Copa do Mundo sempre refletiu o espírito de sua época. Esta Copa será lembrada não apenas pelo futebol, mas por ocorrer num momento em que segurança, geopolítica e rivalidade internacional ocupam um espaço sem precedentes.”

Copa do Mundo e a união

Em Jogos Olímpicos, já ocorreram boicotes, como o dos EUA em Moscou, no ano de 1980, e o da União Soviética em Los Angeles, em 1984. Até um monstruoso atentado contra a delegação israelense, em Munique 1972, comprometeu a competição. A Rússia também está impedida de participar de eventos esportivos por causa da invasão da Ucrânia. Mas uma Copa do Mundo, em si, durante a sua realização, nunca ficou tão à mercê destas disputas.

Leia mais: “EUA barram árbitro da Copa por suspeita de ligação com o terrorismo”

“Podemos nos sentir incomodados ao ver torcedores impedidos de entrar nos EUA, revistas excessivas e até mesmo um juiz impedido de participar da competição. Ao mesmo tempo, todo país tem o direito soberano de estabelecer seus critérios de segurança”, observa o jurista. “A administração Trump está deixando claro que, para ela, a segurança nacional terá prioridade absoluta. A Copa não deixou de ser um símbolo de união. Mas hoje ela acontece em um mundo muito menos unido.”

Nem por isso, está tudo perdido. O próprio semblante concentrado dos atletas, a alegria dos torcedores e a empolgação dos primeiros jogos mostraram que o campo é um território sagrado. Nele, adversários não são inimigos. São, na verdade, companheiros no desafio da superação e do crescimento. Um objetivo comum da humanidade.

“Justamente porque o mundo está mais dividido, eventos como a Copa do Mundo tornam-se ainda mais importantes como espaços de convivência e competição pacífica”, afirma Wolfe. “Num mundo cada vez mais polarizado, o esporte continua sendo uma das poucas arenas onde a rivalidade internacional pode ser expressa sem violência.”

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