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Mauro Vieira fala em 'interferência' dos EUA e 'agressão' da Argentina

Ministro das Relações Exteriores do Brasil disse que Buenos Aires precisa suspender as agressões e que EUA definiram embaixador antes de consultar o governo brasileiro

Mauro Vieira ministro Relações Internacionais
Mauro Vieira disse que importância da parceria bilateral ultrapassa os governos | Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou, em entrevista ao Clarín, que a relação entre Brasil e Argentina chegou a um ponto de deterioração que exige uma mudança imediata de postura do governo de Javier Milei. Para o chanceler brasileiro, a retomada da normalidade depende de um gesto simples de Buenos Aires: interromper os ataques contra o governo, as instituições e autoridades brasileiras. “É preciso apenas um pequeno gesto diante da importância das relações”, afirmou Vieira. “Devem cessar as agressões.”

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O chanceler concedeu a entrevista durante uma passagem por Cali, na Colômbia, onde representou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na posse de Abelardo de la Espriella, do Movimento de Salvação Nacional, na sexta-feira 7.

Segundo ele, a importância da parceria bilateral ultrapassa os governos que estejam no poder. Brasil e Argentina, ressaltou, são parceiros comerciais históricos e construíram, ao longo de décadas, mecanismos de cooperação em áreas estratégicas. Vieira citou como marco dessa aproximação o encontro entre Raúl Alfonsín e José Sarney na fronteira entre os dois países, que abriu uma nova etapa das relações bilaterais.

O ministro também mencionou os mecanismos de transparência criados posteriormente, inclusive na área nuclear, como exemplo da profundidade alcançada pela relação entre os dois países.

“Argentina tem que valorizar a relação com o Brasil da maneira como o Brasil valoriza a relação com a Argentina”, disse Vieira. Para ele, Buenos Aires precisa suspender imediatamente as agressões e retomar o caminho da normalidade.

A crise diplomática levou Brasil e Argentina a manterem suas relações administradas por encarregados de negócios. Vieira afirmou que o retorno do embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, ocorrerá quando desaparecerem as condições que levaram à sua saída. A mesma lógica, segundo ele, vale para o embaixador argentino em Brasília, Guillermo Daniel Raimondi, a quem disse conhecer há três décadas.

“É preciso um gesto: parar as agressões. É um gesto simples diante da importância das relações bilaterais”, afirmou. Vieira classificou como especialmente graves as manifestações de Milei contra o Brasil, no momento em que esteve no país para o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República.

Segundo o chanceler, o presidente argentino atacou não apenas pessoas, mas também instituições brasileiras, os Poderes da República e o responsável pelo Supremo Tribunal Federal que, segundo Vieira, teve papel fundamental na contenção do que ele chamou de tentativa de golpe de Estado e na punição dos envolvidos.

Para o ministro, a sequência de declarações foi particularmente surpreendente porque ocorreu em várias ocasiões em um intervalo inferior a uma semana. A primeira, segundo ele, aconteceu durante uma convenção do Partido Liberal.

Questionado sobre uma eventual articulação entre Milei e o governo dos Estados Unidos, Vieira evitou estabelecer uma ligação. “Isso eu não sei, não sei como são os contatos do presidente Milei com o governo dos EUA.”

A relação entre Brasília e Washington também ocupa espaço central na agenda do chanceler. Vieira atribuiu a deterioração recente a uma ofensiva de intervenção no processo político brasileiro. Ele afirmou que houve dois encontros entre Lula e Donald Trump, um de uma hora em Kuala Lumpur e outro de três horas em Washington, nos quais foram discutidas questões comerciais e os efeitos das tarifas impostas ao Brasil.

Segundo Vieira, a crise mais recente começou com a indicação, pelos EUA, de um candidato ao cargo de embaixador no Brasil. Washington teria permanecido mais de um ano e meio sem representante diplomático no país e, posteriormente, encaminhado o nome ao Senado norte-americano antes de consultar o governo brasileiro.

O chanceler considerou inadequada a maneira como a consulta foi feita. Segundo ele, o governo americano tornou pública uma questão que, pelos procedimentos diplomáticos, deveria ser tratada de forma reservada. A situação teria ocorrido simultaneamente a manifestações de autoridades dos EUA sobre o sistema eleitoral brasileiro, além de pedidos de visitas ao país e ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso.

Vieira afirmou que a suspensão da embaixadora brasileira nos EUA foi uma forma de pressionar Brasília a aceitar o candidato indicado por Washington. Segundo ele, entretanto, a Convenção de Viena não estabelece prazo para a concessão do agrément. O pedido, acrescentou, sequer havia sido levado a Lula, que está concentrado na preparação para as eleições.

O ministro disse ainda que a questão envolve o governo norte-americano como um todo, e não apenas o secretário de Estado, Marco Rubio. Segundo Vieira, ele próprio discutiu o assunto com Rubio em duas ocasiões em Washington.

Na avaliação do chanceler, a pressão dos EUA começou com as tentativas de interferência no processo judicial contra Jair Bolsonaro. Vieira afirmou que houve uma tentativa de impedir o julgamento do ex-presidente, a quem acusou de envolvimento em uma suposta tentativa de golpe de Estado.

Segundo o ministro, o que ele considera conspiração incluía o assassinato do presidente eleito e de um integrante do STF. A partir desse episódio, afirmou, começaram as sanções e as pressões para que o governo brasileiro interrompesse o processo contra Bolsonaro.

Vieira também rejeitou as acusações de Milei de que o governo brasileiro teria financiado uma campanha internacional contra a Argentina. Classificou como falsa a afirmação de que Brasília teria destinado bilhões de dólares a esse objetivo.

O chanceler citou como exemplo a visita do ex-ministro argentino da Economia Sergio Massa ao Brasil. Segundo Vieira, Massa esteve no país quando ainda exercia o cargo para tratar de interesses comuns de sua pasta e se reunir com o ministro da Fazenda brasileiro. “São invenções, não são coisas verdadeiras.”

A política interna brasileira também apareceu na conversa, especialmente diante das acusações de Milei e de integrantes de seu governo de que Lula seria comunista. Vieira rejeitou a classificação e defendeu o modelo econômico adotado pelo governo brasileiro.

“Isso faz parte de todas as agressões”, afirmou. Segundo ele, o Brasil possui uma economia aberta, baixa inflação, baixo desemprego, grande comércio exterior e reservas internacionais expressivas. “O presidente Lula jamais negou nada ou quis mudar esse padrão da economia”, disse Vieira. “É um país que atua com um modelo capitalista.”

O chanceler também minimizou a mudança do cenário político latino-americano em direção à direita. Para ele, trata-se de uma consequência das escolhas feitas pelos eleitores de cada país. “Essas mudanças são os resultados das eleições em toda a região, é a decisão dos eleitores.”

Vieira rejeitou ainda a ideia de que o Brasil esteja isolado diplomaticamente. Citou sua presença recente na posse da presidente peruana Keiko Fujimori e a viagem à Colômbia para representar Lula, além de contatos com governos de Chile, Bolívia, Peru e outros países da região. “Não há isolamento, temos boa relação com todos”, afirmou, mencionando também Equador, Panamá, Guiana e Suriname.

Mauro Vieira reconhece importância dos EUA

Outro ponto de divergência com Washington é a influência econômica da China na América Latina. Vieira reconheceu a importância dos EUA para o Brasil, mas ressaltou que os chineses também ocupam posição central no comércio exterior brasileiro. “China não está presente somente no Brasil, mas em toda a América.”

Segundo o ministro, Lula pretende ampliar as relações comerciais brasileiras em diferentes regiões do mundo, incluindo o Sudeste Asiático e a Europa. Para Vieira, não há razão para que o Brasil escolha entre seus principais parceiros.

Leia mais: “Milei chama Lula de ‘ladrão’ e ‘corrupto'”

O chanceler também criticou o uso de sanções comerciais como instrumento de pressão política. Na sua avaliação, a negociação é mais eficiente do que medidas punitivas.

“Eu entendo que a política de pressões e de sanções não é útil, o que serve é a negociação”, afirmou. “A imposição de sanções não tem lugar, sempre é preciso levar em conta o interesse nacional e é isso que defendemos.”

Vieira acrescentou que Lula está disposto a conversar com governos de diferentes orientações políticas. Para ele, medidas punitivas não necessariamente melhoram a posição de quem as utiliza em uma negociação.

Ao comentar os efeitos das tarifas americanas, o chanceler afirmou que o impacto não se limita ao Brasil. Argentina e outros países da região também enfrentam dificuldades provocadas pelas medidas de Washington.

Vieira admitiu ainda que uma mudança no resultado eleitoral americano poderia alterar o cenário tarifário. “Se Trump perder as eleições, talvez diminua a pressão tarifária”, afirmou.

O chanceler também responsabilizou integrantes da família Bolsonaro pelos efeitos políticos e econômicos das medidas adotadas contra o Brasil. Segundo ele, empresários, trabalhadores e funcionários públicos estão sofrendo com as consequências das sanções, enquanto o governo brasileiro criou programas para proteger os setores mais afetados.

Vieira citou ainda a situação judicial de Jair Bolsonaro e de seu filho Eduardo Bolsonaro, que está nos EUA e perdeu o mandato de deputado. Segundo o ministro, Eduardo deverá responder no Brasil por suas declarações e ações contra o país.

Mauro Vieira, nascido no Rio de Janeiro em 1951, é diplomata de carreira e formado pelo Instituto Rio Branco. Foi embaixador do Brasil na Argentina entre 2004 e 2010 e nos EUA entre 2010 e 2015. Também ocupou o posto de representante permanente do Brasil nas Nações Unidas. Vieira exerce pela segunda vez o cargo de ministro das Relações Exteriores. Sua primeira passagem pela pasta ocorreu durante o segundo mandato de Dilma Rousseff.

4 comentários
  1. Jorge Augusto Santos
    Jorge Augusto Santos

    É impressionante a capacidade do anafabeto ex condenado de encontrar idiotas e mentirosos como ele para nomear para cargos importantes, esse Mauro Vieira é um bom exemplo disso , se procurar o esse boboca fez de bom para o país nada será encontrado

    1. Celso Ricardo Kfouri Caetano
      Celso Ricardo Kfouri Caetano

      É o pombo correio do planalto……….ministro de fato é celso amorim

  2. Luciana Costa
    Luciana Costa

    Fala pro seu verme preferido calar aquela boca de esgoto. Ou ele acha que só ele pode difamar, xingar e denegrir os outros?

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