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No Ponto

A 'sinuca de bico' de Lula na Paraíba

Presidente apoia Veneziano e João Azevêdo para o Senado, mas arrisca indisposição com o comando da Câmara

Nabor Wanderley, João Azevêdo e Veneziano disputam apoio de Lula na disputado pelo Senado na Paraíba | Foto: Divulgação
Da esquerda para a direita: Nabor Wanderley, João Azevêdo e Veneziano; trio disputa apoio de Lula na disputado pelo Senado na Paraíba | Foto: Divulgação dos candidatos

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

• No fim de julho de 2026, Nabor Wanderley (Republicanos-PB) reafirmou sua lealdade ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a convenção do PT em João Pessoa, mas foi vaiado;
• Pesquisas mostram que ele, que é pai do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, tem apenas 11% das intenções de voto;
• Ele aparece bem atrás de João Azevêdo (PSB-PB) e Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB), que contam com apoio de Lula; e
• Motta, filho de Nabor, apoiou a reeleição do petista à Presidência da República.

No fim de julho, Nabor Wanderley (Republicanos-PB) subiu ao palco da convenção do Partido dos Trabalhadores (PT), em João Pessoa, para reafirmar lealdade ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Sempre estive ao lado de Lula”, disse o pré-candidato ao Senado, pai do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). Foi vaiado. No mesmo ato em que jurava fidelidade, o partido de Lula já aplaudia os dois adversários dele na disputa pelas duas vagas paraibanas à Casa legislativa.

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Mesmo antes da vaia, Nabor tinha pouco a comemorar, a julgar pelas pesquisas. Em levantamento estadual do DataTrends, feito de 7 a 9 de junho com 1,2 mil eleitores e registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ex-governador João Azevêdo (PSB-PB) aparecia com 31% e o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB), com 25%. Nabor tinha 11%, atrás do ex-ministro da Saúde Marcelo Queiroga (PL), que marcava 12%. Tudo isso depois de montar, segundo aliados do próprio Nabor ouvidos por Oeste, a maior máquina de prefeitos do Estado.

O apoio que não veio

Lula bateu o martelo em 15 de junho, ao declarar apoio a Veneziano e a João Azevêdo para as duas vagas da Paraíba ao Senado. O PT estadual pôs a posição em nota e afirmou que “ambos têm desempenhado um papel importante na defesa dos interesses da Paraíba e na sustentação das pautas que fortalecem o governo Lula”. Ainda assim, em 10 de agosto, Hugo Motta declarou apoio à reeleição do petista. Lula, disse ele, é “o que converge com aquilo que pensamos ser o melhor para o país”. Motta, vale lembrar, é quem comanda a pauta da Câmara e decide o que vai a plenário e o que fica na gaveta. 

Lula e João Azevêdo | Foto: Divulgação
Lula e João Azevêdo | Foto: Divulgação

Na quinta-feira 13, o petista gravou ao lado de Veneziano e reafirmou seu apoio. Nabor ficou de fora. Nos bastidores corre a versão de que o presidente da República também abençoaria o pai de Motta, o que petistas locais classificam como invenção para confundir o eleitor.

Nabor Wanderley e Lula | Foto: Divulgação
Nabor Wanderley e Lula | Foto: Divulgação

O irmão que julga as contas

No caso de Veneziano, a conta fica ainda mais delicada. O senador que tenta a reeleição é irmão de Vital do Rêgo Filho, reconduzido à presidência do Tribunal de Contas da União (TCU) para 2026, a Corte que julga as contas do governo. Lula apadrinhou, assim, o candidato cujo irmão pode aprovar ou reprovar as suas contas. Vital do Rêgo é o ministro do TCU que, em 2025, usou um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para se deslocar de Belém a Brasília, depois de uma autorização do governo Lula. O uso de aeronaves da FAB não é permitido para o presidente nem ministros do TCU, órgão cuja atribuição é fiscalizar as contas de órgãos federais.

Veneziano Vital, Lula e Vital do Rêgo, presidente do TCU, durante um jantar | Foto: Reprodução/Redes sociais
Veneziano Vital, Lula e Vital do Rêgo, presidente do TCU, durante um jantar | Foto: Reprodução/Redes sociais

O nó dos Ribeiro

Com a proximidade das eleições, o enredo fica mais complicado. Em 5 de agosto, Nabor anunciou como primeira suplente a senadora Daniella Ribeiro (PSD-PB), mãe de Lucas Ribeiro (PP), o governador que assumiu a Paraíba quando João renunciou, em abril, e que agora disputa a reeleição com o apoio da base de Lula. A mãe do governador aliado entrou na chapa do candidato que o presidente escanteou.

Nabor aposta nessa confusão. Ao apresentar a suplente, pediu ao eleitor “primeiro voto em João, segundo em mim”, à caça do segundo voto de quem apoia o ex-governador. Na Paraíba, a manobra costuma funcionar: o eleitor divide as duas cadeiras entre situação e oposição. Para João Azevêdo, o arranjo é fogo amigo. A aposta de Nabor é que o clã de Campina Grande puxe votos para ele, e que esse crescimento saia dos votos de João, não dos de Veneziano.

O fantasma de Cássio Cunha Lima

O que deixa o cenário ainda mais incerto, é que na Paraíba, a pesquisa já errou feio. Em 2018, Cássio Cunha Lima, senador, então primeiro vice-presidente da Casa e favorito histórico, terminou em terceiro e perdeu a vaga. Quem passou por ele foi Daniella Ribeiro, hoje suplente de Nabor. À época, Daniella quase não tinha favoritismo no Estado. Em 2012, inclusive, ela chegou a concorrer como candidata à prefeita de Campina Grande, mas perdeu no primeiro turno. Na Paraíba, o chamado “voto de cabresto” dos prefeitos não aparece nas pesquisas de meio de ano; entra em cena na reta final, quando a máquina municipal é acionada. Nabor tem a maior delas, e é por isso que, apesar dos 11%, ninguém o dá como morto.

Qualquer que seja o resultado, alguém sai devendo. Se Veneziano e João se elegerem, Motta terá declarado apoio à reeleição de Lula sem garantir a cadeira do pai, e segue com a pauta da Câmara debaixo do braço. Se Nabor virar o jogo na reta final, quem pagou a conta foi Lula, que deu a palavra ao irmão do homem que julga as suas próprias contas.

Leia também: “Ascensão sob suspeita” artigo de Yasmin Alencar na Edição 330 da Revista Oeste

A coluna No Ponto analisa e traz informações diárias sobre tudo o que acontece nos bastidores do poder no Brasil e que podem influenciar nos rumos da política e da economia. Para envio de sugestões de pautas e reportagens, entre em contato com a nossa equipe pelo e-mail noponto@revistaoeste.com.

2 comentários
  1. Osmar Martins Silvestre
    Osmar Martins Silvestre

    Paraíba, um estado pobre sobre todos os aspectos, insignificante na composição do PIB nacional, mergulhado no Nordeste igualmente pobre. Entretanto, são esses estados que pouco ou nada contribuem, que comandam o Brasil. Não há como o Brasil dar certo.

  2. Gracia Maria Moura
    Gracia Maria Moura

    A politica brasileira dá nojo. Sempre os mesmos. Isso precisa mudar.

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