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Edição 324

Ainda decidimos?

Não foi a IA que nos substituiu, embora ela tenha substituído as mãos e os fiscais que apuravam votos. Fomos nós mesmos que dispensamos nossa capacidade de pensar

O papa Leão XIV, na magnífica encíclica recém-divulgada, expõe preocupações e constatações sobre a inteligência artificial. Diz que a tecnologia dá poder a quem a controla. Não é neutra. Tem o rosto daqueles que financiam, concebem, regulam e utilizam. Não tem consciência moral. Pode habituar-nos a delegar respostas que substituem nossa própria opinião e criatividade. Ou gerar nas pessoas decisões acríticas que nos expõem à marginalidade, reforçando a posição ideológica daqueles que projetaram os algoritmos, num poder que pode criar dependência, exclusão, manipulação e desigualdade. Segundo Leão XIV, é preciso manter a comunhão que juntou todos, mesmo diferentes, e reergueu as muralhas de Jerusalém, e não a pretensa uniformidade da Torre de Babel.

A encíclica não é contra a IA, mas ressalva que é preciso identificar quem deve prestar contas das decisões, para poder motivá-las e, se necessário, contestá-las, reparando os danos. Como proteção, não basta invocar genericamente a ética, é necessário um quadro jurídico adequado e uma vigilância independente — ou haverá o risco de ficarmos sob as regras impostas não se sabe por quem. O risco é deixar que escolham o nosso próprio caminho, enquanto a maioria permanece a aguardar, a observar de longe, simplesmente esperando que tudo corra bem. Aí, se perde a responsabilidade política.

Parece que o papa está falando no Brasil, especialmente num ano eleitoral, de contagem de votos, num tempo de decisões que marcarão o futuro de todos. Mencionou a Alemanha de Hitler e Pio XII, falou no fim do bloco comunista em 1989. George Orwell, em Revolução dos Bichos e 1984, tratou da perda da liberdade para a ditadura dos porcos ou do irmão mais velho (Big Brother). Os dois livros mostram como é possível abduzir mentes e impor novas formas de escravidão. Dietrich Bonhoeffer, teólogo alemão e pastor luterano executado pelo nazismo, explicou como um povo culto — doutores, pastores, professores, intelectuais — não só permitiu como aplaudiu Hitler. 

Executado pelo nazismo, o pastor Dietrich Bonhoeffer é a prova de que intelectuais podem ser abduzidos por regimes autoritários | Foto: Reprodução

Bonhoeffer escreveu na prisão que a estupidez é pior que a maldade.  A maldade pode ser combatida, tem argumentos, porque quer algo, se revela. Mas a estupidez não, porque é alguém que renunciou ao uso de seu próprio juízo, alguém que entregou sua capacidade de pensar e decidir a um líder, a um slogan, a uma palavra de ordem, a uma ideologia. E quando isso acontece, não se pode apelar à razão, ter um diálogo com argumentos, porque essa pessoa já não tem razão própria, porque está abduzida pela razão alheia, do líder. Quando se junta a um grupo, quanto mais poderoso é o grupo, mas fácil é a pessoa deixar de pensar por si mesma. O grupo dá identidade, e nele, pensar por si próprio pode ter um custo. Aí, o estúpido se torna instrumento de outros sem perceber. Está feliz porque se sente parte de algo grande. Bonhoeffer pensa que não foram Hitler e Goebbels que destruíram a Alemanha, mas os milhões de alemães que se entregaram sem critério, sem fazer perguntas. Pior que serem malvados, eram obedientes sem pensamento próprio.

Assim como a encíclica do papa, o ensaio de Bonhoeffer e as ficções de Orwell parecem servir para o Brasil. E não é de agora. Em 1946, foi derrubado um ditador, Vargas, e o eleito pelas urnas foi seu ministro da Guerra, Dutra. Em seguida, o ditador por 15 anos voltou para mais quatro, pelo voto dos brasileiros. Nos tempos atuais, como é possível que depois do Mensalão, Lula tenha sido reeleito? Como é possível que depois do Petrolão (ou Lava Jato), tenha sido eleito pela terceira vez? Como é possível que Dilma tenha sido reeleita enquanto a economia despencava numa recessão nunca vista antes? Aparece um contrato de R$ 129 milhões com a família de um ministro do Supremo, aportes de R$ 35 milhões num resort de outro, e a vida continua. Como é possível que se impeça de continuar uma CPI sobre o roubo de R$ 6 bilhões a mais de 4 milhões de idosos? Posso ficar citando casos semelhantes a esses sem parar. Deixamos de pensar? Abolimos o espírito crítico? Nos entregamos ao grupo? Delegamos nosso futuro?

Decadência moral e perda da capacidade crítica anteciparam no Brasil os perigos de uma sociedade que abriu mão da liberdade | Foto: Flickr/STF

No Brasil, nos antecipamos em décadas aos perigos alertados pelo papa. Já não são perigos futuros, são do passado e presente brasileiros, e os do passado se repetindo, pelos mesmos autores. Não foi a inteligência artificial que nos substituiu, embora ela tenha substituído as mãos e os fiscais que apuravam os votos. Fomos nós mesmos, numa preocupante maioria, que dispensamos nossa própria capacidade de pensar. Antecipamos no Brasil o que o papa vê como perigo futuro a ameaçar a magnífica humanidade, que precisa ser preservada e engrandecida dentro de cada um: capacidade crítica, liberdade, independência, democracia. Aqui, tudo isso já foi danificado, nossa humanidade vai sendo diminuída pouco a pouco no seu ponto mais fulcral: o direito à vida. Um país que se mata à razão de 50 mil pessoas por ano. Decadência moral que, como o mal não percebido, é lenta — portanto, vamos nos adaptando a ela. Vamos sobrevivendo assim. Vociferamos nossa condenação aos privilégios e à corrupção, desde que não sejamos beneficiados por eles. Sobrevivemos com o energético da hipocrisia. Até fingimos que somos felizes, desde que não nos esfreguem na cara como se vive em país civilizado.

Constato essa alienação — que Bonhoeffer qualifica de estupidez — todos os dias nas trocas de ofensas nas redes sociais, em que impera a falta de argumentos no debate político deste ano eleitoral. Há muitos adjetivos e interjeições, e poucos substantivos — vale dizer, pouca substância. Poucos têm dúvidas e muitos têm certezas. Não que isso seja uma novidade, mas se acentua no período em que deveriam debater ideias, mas debatem pessoas. O previsível resultado é que vamos eleger mais uma vez temperamentos individuais e não caminhos, princípios, objetivos. Logo se percebe que há pouca inteligência nisso. Na polaridade, os dois lados falam para seus próprios irmãos de lado, não estão abertos a convencer o outro lado. Ao contrário, se distanciam cada vez mais com ofensas. Com isso, não vão alterar posições de votos, e vamos continuar em lenta decadência.

Quando os três Poderes se enfraquecem na legitimidade moral, o Estado continua a existir formalmente, mas vai definhando. Se ele próprio não cumpre a Constituição e as leis, o mau exemplo transforma a organização social em selvageria. Já se vê isso no país em que as pessoas vivem em casamatas, se transportam em blindados e não se sentem seguras no fundamental direito de expressão, enquanto são chamadas a pagar cada vez mais tributos. Temos a ilegalidade tolerada e a ilegalidade organizada. A decadência é dramática, mas não trágica, porque as pessoas não sentem. Têm o Carnaval e, em breve, mais uma Copa do Mundo. Será que vão lembrar das eleições?

Leia também “Exclusão de idosos”

15 comentários
  1. Luis Roberto Pinheiro Ferreira
    Luis Roberto Pinheiro Ferreira

    Perfeito, Alexandre Garcia.
    A cegueira ideológica impera no Brasil dos últimos anos. O certo dá lugar ao errado.

  2. Zélia Vieira Woolf de Oliveira
    Zélia Vieira Woolf de Oliveira

    Parabéns mestre Alexandre, texto magnífico e reflexivo.

  3. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    A essa altura não é pra se debater nada, é prisão e fuzilamento pra comunista terrorista

  4. Leonardo de Almeida Queiroz
    Leonardo de Almeida Queiroz

    Li hoje o Augusto Nunes , agora o Alexandre Garcia, representantes dos anos 1940-1950, fico a procurar os dos anos 1970-80 e não encontro ninguém, vou encontrar o van Haten , o Nikolas Ferreira , e me pergunto como perdemos algumas geraçoes com senso crítico, espírito de luta pelo Brasil!

  5. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Amei o artigo. A estupidez é de fato pior do que a maldade. É manipulada por elao

  6. Maria Lucia Benevides de Schueler
    Maria Lucia Benevides de Schueler

    Excelente texto ao mesmo tempo que é assustador. Nos remete às distopias. Mas infelizmente é a nossa realidade. As eleições se aproximam e não percebo perspectivas de mudança na mentalidade vigente.

  7. Hilciene de Jesus Pereira Salomão
    Hilciene de Jesus Pereira Salomão

    Parabéns mestre Alexandre, seu artigo é muito esclarecedor.

  8. José Alex Nassar
    José Alex Nassar

    Parabéns mestre Alexandre Garcia, como sempre extraordinário em suas colunas 👏🏼👏🏼👏🏼

  9. João Luiz Bosso
    João Luiz Bosso

    Parabenizar Alexandre Garcia é chover no molhado.
    Ótima exposição do que somos hoje, após décadas de doutrinação nas escolas e redações, sem contar o que as redes sociais infiltram nos cérebros “desneuronizados”.
    A IA não deveria substituir nossas decisões, principalmente porque, como fica claro na explanação, quem a controla cria algoritmos que vão dominar mentes inexoravelmente.
    Estamos como sapos na panela com água sobre o fogo; a reação é mais que necessária, é urgente.

  10. Carlos Perktold
    Carlos Perktold

    Ótimas perguntas no texto, mas não temos explicações para elas. Pior será se ele for eleito para mais um mandato. Aí, sim, o brasileiro provará que perdoa tudo, desde que o pecador seja de esquerda e que lhes garanta a miséria das bolsas. Sou da geração do Lula e sempre achei que quando estivéssemos no poder, tudo seria diferente e pra melhor. Não foi. Foi pior. Triste pais!

  11. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Prestou minha homenagem ao mestre Alexandre Garcia por esse artigo profundo, sobre a IA.O pensamento, o conhecimento e o livre arbítrio são capacidade apenas de seres humanos.Ela define o ser humano em sua essência, nada poderá anular essas capacidades intrínsecas do homem.

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