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O artigo discute a popularização das apostas, ou "bets", no Brasil, ressaltando suas consequências trágicas, como endividamento e suicídios. O autor critica a hipocrisia das campanhas que promovem o jogo responsável, enquanto a legislação atual permite a exploração do jogo de azar. Relata experiências pessoais e históricas, destacando a relação entre apostas e crime organizado, além de mencionar a movimentação de R$ 37 bilhões em apostas no país.
Bet é “aposta” em inglês. No Brasil, a gente chama aposta de bet. É a mesma falta de lógica que nos levou a chamar um centro de lojas de shopping — que os americanos chamam de mall. Divirto-me imaginando o brasileiro surpreendido em Washington pelo convite para uma festa de gala, indo ao aluguel de roupa e levando uma baforada ao pedir um smoking, em vez de um tuxedo. É que por aqui, mal ouvimos falar em smoking jacket e confundimos a roupa. O nosso outdoor segue a mesma lógica. Ouvimos falar em outdoor advertising — anúncio ao ar livre — e passamos a chamar o imenso painel de rua de outdoor — que os americanos chamam de billboard. Isso pode soar engraçado, menos a aposta bet, que é trágica, porque espalha tragédias pelo Brasil, com famílias destruídas por endividamentos impagáveis e muitos consequentes suicídios de apostadores.
O jogo cujo resultado depende da sorte se chama jogo de azar — e é contravenção, segundo a Lei de Contravenções Penais, artigo 50, §3º. Para quem explora jogo de azar em lugar acessível ao público, dá-se multa de até R$ 200 mil, extensível a quem participa pela internet, diz atualização da lei em 2015. Mas a própria lei, no art. 51, pune “promover loteria não autorizada” — ou seja, se o Estado autoriza, aí pode. Dona Santinha, mulher do presidente Eurico Gaspar Dutra, fez fechar os cassinos por estarem endividando e destruindo as famílias. Isso foi em 1946. E atingiu o Quitandinha, o Cassino da Urca, os cassinos de estações de águas em Araxá, Caxambu, Poços de Caldas, Lambari… Pegava os mais abonados. Depois, veio o jogo para os de menos recursos. O jogo do bicho do Barão de Drummond passou a imperar sozinho. Era para arrecadar para o Jardim Zoológico do Rio, no início da república, mas criou um império centenário. O governo militar criou a Loteria Esportiva, para ver se abafava o jogo do bicho. Não conseguiu, mesmo com a ajuda da TV, que inventou a zebra e o matemático Oswald de Souza.

Meu avô paterno foi morto a tiro em 1918 no cassino de Rivera, a cidade uruguaia gêmea de Santana do Livramento. Um amigo dele o procurara pedindo dinheiro para comprar remédio para a esposa doente. Meu avô emprestou, mas desconfiou que o amigo estava abduzido pelo jogo. Foi ao cassino e lá o encontrou, jogando cartas. Sentou-se à mesa e pediu que os deixassem jogando a sós. Meu avô ganhou ali todo o dinheiro que havia acabado de emprestar e resolveu dar uma lição ao viciado:
— Você perdeu o que jogou. Agora me deve o que lhe emprestei.
Os circunstantes riram do perdedor e ele, vexado, sacou o revólver e matou meu avô.
Contei essa história a um querido amigo que conheci no governo Figueiredo e que se tornou ministro e presidente do Superior Tribunal de Justiça. Quando terminei o relato, ele estava pálido:
— Foi meu avô que matou o seu avô!
Sugeri que lavássemos a honra da família ao nascer do sol do dia seguinte e que ele escolhesse as armas. Somos amigos até hoje e usamos nossas armas contra o jogo, que só gera tragédias.
Hoje leio depoimentos de parentes de gente que foi abduzida pelas bets. Gente que ganha pouco e deve milhões. Vai pedindo emprestado para jogar. Quem ganha é sempre quem banca a aposta. Como nas loterias controladas pela Caixa, uns poucos ganham e milhões perdem milhões.

Nunca joguei. Sempre apostei em mim mesmo. Com isso, ganhei sempre — o que deixei de gastar em apostas e o resultado do que investi em mim mesmo. Nunca dá zebra. Apostar em si próprio é sorte grande certa. Hoje vejo gente do Bolsa Família que joga o dinheiro fora em bets. Se endivida moralmente com aqueles que trabalharam e pagaram impostos que se converteram no Bolsa Família que vai para o lixo da aposta.
Com a Copa, as apostas eletrônicas deram um salto, e milhões apostaram milhões e perderam milhões. A hipocrisia da propaganda induzindo a apostar aconselhava: “Aposte com responsabilidade”. Ora, toda aposta é irresponsável, porque se baseia no acaso, que é sinônimo de sorte ou azar. Aposta-se no sonho de ficar rico, pagando para isso, quando deveria poupar quem quiser ter o sonho de enriquecer. Assim como se avisa no maço de cigarro que o fumo causa câncer, deveria haver um aviso de que apostar dinheiro é apostar em tragédia. Por incrível que pareça, o site gov.br, no Ministério da Fazenda, registra o seguinte: “O conceito de jogo responsável visa garantir que as práticas de jogos e apostas sejam realizadas de forma segura, saudável e consciente, prevenindo vícios e protegendo os consumidores apostadores, especialmente os mais vulneráveis”. É uma tremenda hipocrisia.
Autora desse conselho, a Secretaria de Prêmios e Apostas, do Ministério da Fazenda, municiou a Polícia Federal para uma operação recente por lavagem de dinheiro e evasão de divisas com apostas clandestinas. Ao mesmo tempo, abriu inquérito administrativo sobre estímulo ao jogo de azar, nos comerciais divulgados durante a transmissão de jogos da Copa. A Anatel foi mobilizada para tirar das redes apostas clandestinas. Pelo que se sabe, 87 empresas são alvo da operação conjunta. O presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, acaba de fazer um alerta para a ligação entre as bets e o chamado crime organizado. Conselheiro Acácio perguntaria se ele acha isso uma novidade, já que essa tem sido a atividade dos bicheiros do Rio de Janeiro, desde o século passado.
Acordou tarde o ministro da Fazenda, que agora anuncia que vai obrigar avisos de que aposta não é investimento, causa dependência e faz perder dinheiro. Assim como vai conter os arroubos da publicidade das bets. Na Comissão do Esporte da Câmara dos Deputados, o assunto foi debatido nesta semana. O secretário-adjunto de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda trouxe um número oficial, que certamente é só a pontinha de um iceberg: as bets movimentaram R$ 37 bilhões no ano passado. A coordenadora da área psicossocial do Ministério da Saúde mostrou estatísticas de que o brasileiro aposta mais do que o dobro da média mundial. E que isso leva ao endividamento, à violência doméstica, a transtornos psíquicos e ao suicídio. Apostando no acaso — azar, sorte —, perdemos. Apostando em nós mesmos, ganhamos. Os parlamentares buscam leis que restrinjam as apostas e sua propaganda. Mas isso é o universo fora da família e não é tão eficaz quanto a ação em família. Se os pais apostam, os filhos apostarão. Se os pais doutrinarem seus filhos, mostrando que a aposta é uma praga, poderão apostar que os filhos não cairão na tragédia das bets, as bestas deste apocalipse.
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Eu, também, não, Alexandre! Nunca apostei um centavo sequer em toda a minha vida. Matéria muito esclarecedora. Lamentável pra onde está indo esse nosso “Bananil”.
Quando escroques capazes de tudo por dinheiro tomam conta do governo e das instituições o país despenca ladeira abaixo rumo ao precipicio moral, institucional e economico do qual geraçoes terão que lutar para escapar! Este artigo do Alexandre Garcia combinado com o do Fiuza retratam uma nação soçobrando sob o peso de elites politicas irresponsaveis, inconsequentes e depravadas! Deus salve o Brasil!
Tem que simplesmente proibir
A porteira abriu e a boiada ja passou, agora é que vao tentar estancar a sangria? Tarde demais, os incautos e desiludidos do Bolsa Familia, aquele programa que nao tem porta de saída, estao se afundando cada vez mais! Parabéns desgoverno do odio, mais uma vez se superaram!
Essas frases “alertando” o infeliz viciado para nao jogar são tão ridiculas quanto os sábios do governo que as inventaram, sabendo que tem efeito zero!
Só para lembrar. Em Canela antes da inauguração do cassino surgiu a lei impedindo o jogo no Brasil. Prejuízo aos investidores e as ruínas continuam até hoje e muita gente faz visita por lá, só para conferir. Como o jogo já está sendo considerado vício e o cigarro e bebida alcóolica também, o jogo deveria ser proibido, pelo menos na tv. O cigarro e a bebida não podem mais patrocinar futebol pela tv. Quem sabe, sem propaganda diminui um pouco o vício nacional. Quando existia a loteria esportiva, só ela, eu e meus colegas de trabalho preparavam um bolão. A úncia vez que ganhamos foi aquela do recorde de assertadores, cada um de nós ganhou ns 20 pila. Foi uma gozação plena. Depois desta, abandonamos tudo e depois com o tempo vi o goleiro Mazaropi denuciando a manipulação dos jogos na Placar… Lembra?