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Ministros do STF, Flávio Dino e Alexandre de Moraes | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Edição 332

O poder de olho no Senado

Formação de bancada pró-impeachment de ministros do STF preocupa

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

Em 29 de junho de 2025, o ex-presidente Jair Bolsonaro, em um protesto na Avenida Paulista, destacou a importância de conquistar a maioria no Congresso nas eleições de 2026, especialmente no Senado, para limitar o poder do STF. A preocupação com uma possível maioria oposicionista levou o STF a monitorar de perto as eleições, resultando em medidas como a liminar de Gilmar Mendes que dificultou a destituição de ministros.

Diante de uma multidão na Avenida Paulista, em 29 de junho de 2025, o ex-presidente Jair Bolsonaro anunciou a prioridade de seu grupo político para as eleições de 2026: conquistar a maioria do Congresso Nacional. “Se me derem, por ocasião das eleições do ano que vem, 50% da Câmara e do Senado, eu mudo o destino do Brasil”, prometeu. “Não me interessa onde eu esteja, aqui ou no além.” O protesto tratou das liberdades e criticou, sobretudo, o governo Lula 3.

Bolsonaro estabeleceu o Senado como prioridade. Neste ano, estarão em disputa 54 das 81 cadeiras — dois terços da composição responsável por processar e julgar pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Para o ex-presidente, eleger uma bancada majoritária é o caminho para impor limites à Corte que adotou o ativismo do Poder Judiciário como a sua maior bandeira desde 2019.

Terror supremo

Mais de um ano depois, durante um encontro no fim de uma tarde agradável em Brasília, um ministro do STF mencionou o episódio em conversa com a reportagem. Entre um cappuccino italiano e um croissant de presunto e queijo acompanhado de patê de ricota com ervas finas, o magistrado deixou claro que a mensagem de Bolsonaro fora ouvida atentamente a quase mil quilômetros de São Paulo, na capital federal. A composição do Senado tornou-se a principal preocupação do STF, por se tratar de “sobrevivência política”. Magistrados, que já acompanhavam avidamente pesquisas sobre a popularidade do tribunal, redirecionaram parte da atenção aos levantamentos eleitorais. O interesse agora se concentra no desempenho, Estado por Estado, dos candidatos postos à disposição pelos partidos. Por meio desse monitoramento, integrantes do STF procuram medir o que chamam, em voz baixa, de “o termômetro do perigo”.

O receio de uma eventual maioria oposicionista já produziu medidas concretas. Em dezembro de 2025, o decano Gilmar Mendes concedeu uma liminar que dificultou a destituição de integrantes do tribunal. Determinou que a abertura do processo passaria a depender do apoio de 2/3 dos senadores — 54 dos 81 — e restringiu à Procuradoria-Geral da República o poder de apresentar denúncias contra magistrados da Corte. Mendes recuou parcialmente uma semana depois, diante do repúdio de autoridades, da opinião pública e da imprensa velha. O decano restabeleceu a possibilidade de qualquer cidadão apresentar um pedido, mas manteve a exigência dos 54 votos para a abertura do processo, justamente o número de cadeiras em disputa nas eleições deste ano.

Ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, durante entrevista para a Agência Brasil | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Gilmar Mendes alterou regras de impeachment no Supremo diante do temor sobre o resultado das eleições | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Em outra frente, uma ala da Corte procura influenciar a composição das chapas e retirar do páreo nomes escolhidos por Bolsonaro. Indicado ao STF por Lula e aliado de Mendes, Flávio Dino desempenha papel central nesse movimento ao usar as emendas parlamentares como instrumento de pressão nos partidos. Bloqueios de recursos, cobranças de explicações e o envio de informações à Polícia Federal atingem dirigentes responsáveis por definir candidaturas, distribuir recursos eleitorais e acomodar nas chapas os nomes indicados pelo ex-presidente. A atuação indireta de Dino fortalece alas partidárias dispostas a investir em candidatos “moderados, previsíveis e resistentes” à possibilidade de, no futuro, votar pela destituição de quaisquer magistrados do STF, disse um membro da Corte.

Indicado por Lula e aliado de Gilmar Mendes, Flávio Dino pressiona partidos para afastar candidatos de Bolsonaro | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Tabuleiro político

O Rio de Janeiro, berço político da família Bolsonaro, é um dos exemplos mais emblemáticos dessa disputa. No Estado, a definição da chapa completa do PL foi adiada diante do receio de que os escolhidos pelo ex-presidente se tornem alvo de medidas judiciais antes das convenções partidárias. Por ora, apenas o senador Carlos Portinho (PL) está confirmado. A segunda vaga permanece em aberto. Bolsonaro prefere o deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL), a quem considera mais preparado para articular apoios e estabelecer diálogos no Senado. Aliados temem, no entanto, que o líder do partido na Câmara seja atingido por uma nova decisão judicial antes da eleição. Sóstenes já foi alvo de uma operação autorizada por Dino, no âmbito de uma investigação sobre o suposto uso irregular da cota parlamentar, e demonstrou desânimo em disputar a cadeira.

Sóstenes Bolsonaro
A indicação de Sóstenes Cavalcante esbarra no receio de aliados sobre possíveis retaliações judiciais I Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

Diante desse risco, o deputado Carlos Jordy (PL) ganhou força como alternativa, embora também tenha sido alcançado pelo mesmo inquérito. A estratégia consiste em adiar a definição até as proximidades das convenções, reduzindo o tempo disponível para uma eventual medida judicial contra o escolhido. Nos bastidores, Flávio demonstra preferência por Jordy. Paralelamente à atuação de Dino, decisões de Alexandre de Moraes também interferiram no tabuleiro eleitoral fluminense. O ministro autorizou uma operação contra Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo, que havia sido escolhido por Flávio para disputar o Senado. Para integrantes do grupo, as medidas conduzidas pelos dois magistrados reforçaram a percepção de que candidatos ligados à família Bolsonaro podem ser atingidos antes mesmo da formalização de todas as chapas.

Os ministros do STF Flávio Dino e Alexandre de Moraes
Os ministros do STF Flávio Dino e Alexandre de Moraes participaram do seminário “A necessidade de regulamentar as redes sociais e o papel das plataformas na economia digital”, em agosto | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

A articulação se estende a São Paulo. No maior colégio eleitoral do país, duas das três cadeiras do Estado — atualmente ocupadas por Mara Gabrilli (PSD) e Alexandre Giordano (Podemos) — estarão em disputa. Nos bastidores, integrantes do Supremo veem com simpatia eventuais candidaturas de Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB), ex-ministras do governo Lula. Também consideram aceitável o nome de André do Prado (PL), presidente da Assembleia Legislativa (Alesp) paulista e aliado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que garante a aprovação da pauta do Palácio dos Bandeirantes na Alesp.

Embora filiado ao PL, Prado construiu a carreira por meio de alianças pragmáticas com diferentes grupos políticos. Já apoiou candidatos do PT, aproximou-se de Márcio França (PSB) e atuou como líder do governo de João Doria (PSDB) na Assembleia. Por isso, é considerado mais previsível e aberto à negociação que os nomes defendidos por Bolsonaro. O mesmo não ocorre com Ricardo Salles (Novo) e Guilherme Derrite (PP). Identificados com a ala mais combativa da direita, ambos enfrentam resistência de ministros do STF, que não os querem no Senado de jeito nenhum. A preferência por Prado, portanto, não decorre de afinidade ideológica, mas da avaliação de que o deputado representa a alternativa “bem mais moderada e negociável”.

A resistência aos nomes ligados a Bolsonaro não se restringe ao Sudeste. Em outros Estados, decisões judiciais, pressões internas e articulações partidárias também interferem na formação das chapas ao Senado. Em Pernambuco, o embate ocorreu dentro do próprio PL e levou o ex-ministro Gilson Machado a deixar a legenda. Atualmente, a chapa do PL é composta pelos deputados Anderson Ferreira e Mendonça Filho (ex-ministro da Educação do governo Michel Temer), bem vistos pelo STF.

Mendonça Filho, Flávio Bolsonaro e Anderson Ferreira | Foto: Reprodução/Meteored

O cenário se repete em Mato Grosso do Sul. O deputado federal Marcos Pollon (PL), escolhido por Jair e Michelle Bolsonaro para concorrer ao Senado, perdeu espaço dentro do próprio partido após Dino abrir também contra ele um procedimento para investigar supostas irregularidades nas emendas parlamentares. Por isso, hoje o PL apresenta como pré-candidatos o ex-governador Reinaldo Azambuja, atual presidente da legenda no Estado apesar de 30 anos militando pelos tucanos, e o ex-deputado Capitão Contar, tidos como do “centrão”. Com isso, Pollon ficou fora da chapa, embora continue reivindicando a vaga com base no compromisso assumido pela família Bolsonaro.

As negociações continuam em outros Estados, onde a oposição ainda ajusta alianças e define candidatos para as duas vagas em disputa. Cada movimento é acompanhado de perto pelo tribunal, atento tanto à força eleitoral dos nomes ligados a Bolsonaro quanto à disposição dos demais concorrentes de confrontar a Corte no futuro.

Bem comum

A eleição de um Senado de perfil conservador pode alterar o equilíbrio entre os Poderes. Cabe exclusivamente à Casa processar e julgar ministros do tribunal por crimes de responsabilidade, além de abrir comissões que possam investigá-los. Uma bancada oposicionista forte teria, portanto, instrumentos para transformar a insatisfação com a Corte em consequência institucional, inclusive, se reunidos os votos necessários, na destituição de magistrados.

Antes de vencer essa disputa, todavia, a oposição terá de superar as próprias divisões. Divergências entre partidos, projetos pessoais e, sobretudo, os embates dentro da família Bolsonaro ameaçam pulverizar votos e inviabilizar candidaturas competitivas. O STF acompanha cada movimento porque conhece o tamanho do risco. A direita também o conhece; resta saber se conseguirá deixar suas disputas de lado antes que elas decidam a eleição.

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8 comentários
  1. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    As eleições ja estão maculadas. Os candidatos saoescolhidos pelo STF. Esse pais já é uma ditadura muito pior do que o regime militar . A agua ferveu e os sapos morreram

  2. Carlos Gilberto Fraga
    Carlos Gilberto Fraga

    Quem acompanha mais de perto o cenário da política brasileira sabe que o Sistema é forte demais e está profundamente enraizado em todos os meandros dos Três Poderes. Os afetos do Lula não escondem mais e vêm trabalhando como militantes raízes, ferrenhos. Vai ser difícil. E há ainda as pendências jurídicas que encarceram muitos dos nossos políticos. Há um longo caminho a percorrer para descontaminar a câmara e o senado no Brasil. A subserviência é o cárcere das amarras e poucos fogem disso.

  3. Juliana saad de carvalho
    Juliana saad de carvalho

    Na verdade, ditaduras não sao extintas no voto…

    1. Juliana saad de carvalho
      Juliana saad de carvalho

      Mesmo assim, mais importante que o executivo é o Congresso, e particularmente o Senado, nessa eleição .

  4. Renato Perim
    Renato Perim

    Baaaahhhh deixem de viajar na maionese, se tiver um senado com 80 senadores de direita, conservadores, e o presidente for um alcolumbre da vida não vai mudar nada. E tirem o cavalinho da chuva porque os ditadores não vão deixar candidatos bons concorrer a vaga nenhuma. Já cassaram um monte, mais um não custa nada.

  5. RODRIGO DE SOUZA COSTA
    RODRIGO DE SOUZA COSTA

    Se preparem para cassações absurdas , a la Deltan Dallagnol. Nesse caso, não imagino o que vão inventar para cassar ele novamente.

    1. daise a.scopiato
      daise a.scopiato

      É fato!! A “”coisa” foi muito “bem coisada”! Na me iludo! A dita é dura mesmo!!!

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