publicidade
Política

Moraes e a linha tênue entre justiça e poder

Ministro do STF tornou-se uma das figuras mais poderosas do Judiciário, mas isso não o coloca acima das críticas, muito menos acima da Constituição

O ministro do STF Alexandre de Moraes: relatoria sem sorteio | Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF
O ministro do STF Alexandre de Moraes | Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

• A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, de autorizar uma operação da Polícia Federal contra fontes do jornalista Luís Pablo levanta preocupações sobre a liberdade de imprensa e o sigilo da fonte, afirma Marcelo Tostes;
• O articulista lembra que o deputado Cabo Gilberto Silva apresentou um pedido de impeachment contra Moraes, alegando violação constitucional;
• Diante do caso, entidades de imprensa criticaram a medida de Moraes, pois a viram como um precedente perigoso; e
• Enquanto isso, o presidente do STF, Edson Fachin, reafirmou a importância do sigilo da fonte para o livre exercício da prática jornalística.

Por Marcelo Tostes*

A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de autorizar uma operação da Polícia Federal contra pessoas apontadas como fontes de um jornalista, traz à tona uma discussão que deveria preocupar todos os brasileiros, independentemente de preferência política: até onde pode ir o poder de um magistrado quando estão em jogo a liberdade de imprensa, o sigilo da fonte e o direito à informação?

O episódio ganhou dimensão política depois que o deputado federal Cabo Gilberto Silva (PL-PB), líder da oposição na Câmara, apresentou mais um pedido de impeachment contra Moraes, acusando-o de violar uma garantia constitucional. O caso envolve Raimundo Soares Cutrim e Diogo Diniz Lima, investigados por supostamente fornecer informações ao jornalista Luís Pablo, responsável por reportagens sobre o uso de veículos do Tribunal de Justiça do Maranhão por familiares do ministro Flávio Dino.

Receba nossas atualizações

Investigar possíveis crimes é atribuição legítima do Estado. Se existem indícios de que dados sigilosos foram obtidos ilegalmente, que recursos foram utilizados para financiar atividades criminosas ou que houve ameaça à segurança de autoridades, tais fatos precisam ser apurados. O próprio Moraes afirma que o sigilo da fonte não pode servir de proteção para práticas criminosas.

+ Entenda como funciona a política brasileira no guia de Oeste

O problema, entretanto, está no limite. O jornalismo depende de fontes que possam falar sem medo de retaliação. O sigilo da fonte não é um privilégio concedido ao jornalista; é uma proteção constitucional criada para preservar o direito da sociedade de receber informações de interesse público. Sem essa garantia, denúncias envolvendo autoridades, empresas e instituições podem simplesmente deixar de chegar à imprensa.

Entidades de imprensa criticam Moraes

É justamente por isso que a operação provocou manifestações de entidades como Associação Nacional de Jornais, Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, Associação Nacional de Editores de Revistas, Federação Nacional dos Jornalistas e Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. As organizações classificaram a medida como um precedente perigoso para a liberdade de imprensa.

A OAB Federal mais uma vez se calou com relação a este flagrante ato que, além de ser inconstitucional e imoral, demonstra clara intenção de o ministro Alexandre de Moraes enfrentar e desrespeitar a imprensa e a sociedade brasileira. Mais significativo ainda é o fato de a controvérsia ter provocado uma reação dentro do próprio STF. O presidente da Corte, Edson Fachin, reafirmou que o sigilo da fonte é um direito fundamental dos jornalistas e indicou levar o caso ao plenário.

Isso deveria servir como alerta. Quando uma decisão de tamanha repercussão constitucional é tomada de forma monocrática, e posteriormente gera questionamentos dentro da própria Suprema Corte, o mínimo que se espera é transparência, colegialidade e cautela. Moraes tornou-se, nos últimos anos, uma das figuras mais poderosas do Judiciário brasileiro. Em diferentes momentos, suas decisões foram fundamentais para enfrentar ataques às instituições e investigações de grande relevância nacional. Isso, porém, não o coloca acima das críticas; muito menos acima da Constituição.

É precisamente porque o STF exerce um papel tão poderoso que seus ministros precisam estar sujeitos a controles institucionais rigorosos. Democracia não significa apenas impedir que um grupo político ataque as instituições, mas também evitar que as próprias instituições ultrapassem os limites que a Constituição estabeleceu para elas.

Alvo de pedido de impeachment

O pedido de impeachment apresentado pela oposição não deve ser tratado simplesmente como uma revanche política contra Moraes. A crítica mais importante não é contra uma pessoa, mas contra a concentração excessiva de poder. Nenhum ministro do STF deveria reunir simultaneamente tamanha capacidade de investigar, determinar medidas invasivas e conduzir processos envolvendo adversários ou críticos das instituições sem que exista permanente escrutínio externo e colegiado.

O Brasil não pode aceitar que a defesa da democracia seja utilizada como justificativa para enfraquecer as próprias liberdades que sustentam a democracia. Combater crimes é necessário. Proteger ministros ameaçados também. Mas liberdade de imprensa, sigilo da fonte, devido processo legal e limites ao poder estatal também são pilares democráticos. Alexandre de Moraes não está acima da Constituição. O STF também não.

Leia também: “Democracia torturada”, artigo de Adalberto Piotto publicado na Edição 335 da Revista Oeste

E mais: “Togas em frangalhos”, por Augusto Nunes


*Marcelo Tostes é advogado, conselheiro federal da Ordem dos Advogados do Brasil e CEO do Marcelo Tostes Advogados.

1 comentário
  1. João Luis Senson
    João Luis Senson

    Esse merece um TIRO NO MEIO DOS OLHOS…FDP DOS INFERNOS.

Canal Oeste
Nossos colunistas
Foto do autor J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Foto do autor Augusto Nunes
Augusto Nunes
Foto do autor Ana Paula Henkel
Ana Paula Henkel
Foto do autor Guilherme Fiuza
Guilherme Fiuza
Foto do autor Rodrigo Constantino
Rodrigo Constantino
Foto do autor Alexandre Garcia
Alexandre Garcia
Foto do autor Antonio Cabrera
Antonio Cabrera
Foto do autor Eugênio Esber
Eugênio Esber
Foto do autor Evaristo de Miranda
Evaristo de Miranda
Foto do autor Flávio Gordon
Flávio Gordon
Foto do autor Roberto Motta
Roberto Motta
Foto do autor Miriam Sanger
Miriam Sanger
Foto do autor Adalberto Piotto
Adalberto Piotto
Foto do autor Frank Furedi, da Spiked
Frank Furedi, da Spiked
Foto do autor Jeffrey A. Tucker.
Jeffrey A. Tucker.
Foto do autor Theodore Dalrymple
Theodore Dalrymple
Foto do autor Flavio Morgenstern
Flavio Morgenstern
Foto do autor Ubiratan Jorge Iorio
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
publicidade