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Política

Um café potencialmente amargo

A decisão de Trump de manter as sanções contra o Brasil é apresentada como um sinal de que Washington vê riscos para as eleições de 2026

Os presidentes Donald Trump (EUA) e Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil) durante encontro | Foto: | Foto: Casa Branca/Daniel Torok

Em 28 de julho, como se sabe, o presidente americano Donald Trump publicou uma nota comunicando a prorrogação por mais um ano (por enquanto) da emergência nacional declarada pela Ordem Executiva 14323, de 30 de julho de 2025, base sobre a qual os EUA aplicaram sanções ao Brasil via IEEPA (International Emergency Economic Powers Act).

Os motivos declarados pelo presidente americano foram muito claros: a aplicação da emergência nacional tinha o objetivo de lidar com aquilo que ele chamou de “ameaça incomum e extraordinária (…) à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos, constituída pelas políticas, práticas e ações do governo do Brasil”.

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Que não restem dúvidas, pois as palavras do líder da maior potência militar, tecnológica e econômica do mundo são prenhes de gravidade e consequências. Para o presente governo americano, o Brasil tornou-se um país hostil, novo integrante de uma lista em que já estão há muito tempo nações como a China, o Irã e a Venezuela. Mas há um aspecto nessa postura do governo americano que, a nós brasileiros, toca mais diretamente. O claro reconhecimento da perseguição política imposta a Jair Bolsonaro e seus filhos por parte do regime luloalexandrino. E não só a eles, como também ao conjunto de seus eleitores, militantes e admiradores em geral.

Na Ordem Executiva 14323, de julho do ano passado, há um trecho particularmente relevante, que coloca a questão para muito além de meras sanções econômicas. Em referência à acusação contra Bolsonaro de tentativa de golpe de Estado, lê-se na página 37740 daquele documento:

“Autoridades brasileiras também estão perseguindo politicamente o ex-presidente do Brasil Jair Bolsonaro. O governo do Brasil injustamente acusou Bolsonaro de múltiplos crimes relacionados ao segundo turno das eleições de 2022 de Bolsonaro, e o Supremo Tribunal Federal do Brasil decidiu, de forma equivocada, que Bolsonaro deve ser submetido a julgamento por essas acusações criminais injustificadas. A perseguição política, por meio de processos fabricados, ameaça o desenvolvimento ordenado das instituições políticas, administrativas e econômicas do Brasil, inclusive comprometendo a capacidade do Brasil de realizar uma eleição presidencial livre e justa em 2026.”

O ministro do STF Alexandre de Moraes | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
O ministro do STF Alexandre de Moraes | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Há um ano, portanto, o governo americano já suspeitava que Alexandre de Moraes e seus comparsas togados pudessem tentar roubar a eleição de 2026 em favor de Lula. Não é exagero interpretativo, é leitura literal do documento. E o leitor há de convir que essa suspeita não fez senão se agravar diante de episódios recentes – a exemplo da vergonhosa proibição de entrada, em solo brasileiro, de dois observadores eleitorais americanos ligados à equipe de Marco Rubio.

Mas nada é tão simbolicamente eloquente quanto o convite do descondenado ao militante antibolsonarista de toga para um cafezinho no Planalto. Esse gesto, aparentemente ameno, consagra publicamente toda uma arquitetura de conluio entre Executivo e Judiciário que os republicanos clássicos – de Montesquieu a Madison – identificariam imediatamente como a receita certa para a dissolução da liberdade política: a fusão dos poderes em nome da “salvação da democracia”.

Trata-se da mesma eloquência simbólica, aliás, que falas como “missão dada é missão cumprida” e “derrotamos o bolsonarismo” já haviam consagrado, para a posteridade, como uma confissão do caráter espúrio da eleição de 2022, o primeiro golpe de Estado jurídico contra Jair Bolsonaro e a sua gigantesca massa de eleitores.

Portanto, o risco para o Brasil não é apenas no terreno das sanções econômicas. É também um alto risco geopolítico, do qual talvez suas elites política, econômica e cultural ainda não se tenham dado conta: o de termos, de maneira inédita, uma eleição presidencial não reconhecida pelo governo do país mais poderoso do mundo, nosso principal investidor estrangeiro e aliado histórico. Eis o belo legado de Lula, Moraes e sua grei.

1 comentário
  1. Osmar Martins Silvestre
    Osmar Martins Silvestre

    A meu ver a análise é perfeita como seria de se esperar de Flávio Gordon. Não é a análise que vai arrancar efusivos “likes” de leitores da direita, convencidos de um “já ganhou” que talvez e, muito provavelmente, não virá. Como leitor desta revista e da Gazeta do Povo, não ganho “likes” quando critico o amadorismo e até a ingenuidade da direita diante das ameaças que estão aí para todos verem. Infelizmente são poucos os que duvidam de um provável resultado que está por vir. Eles não desistirão facilmente, porque sabem que perder o poder seria perder a liberdade por toda a vida, seria perder a chance de gastar tudo aquilo que amealharam às custas da miséria do povo. Para eles seria o fim, e isso, eles não vão aceitar.

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