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Edição 335

‘Non ducor, duco’

Os populistas no governo não investem no ensino e no conhecimento, porque seria dar liberdade ao povo cativo, às decisões do eleitor

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

Alexandre Garcia, agraciado com o título de Cidadão Paulistano, reflete sobre a importância da autonomia do povo na democracia, ressaltando que a verdadeira condução deve vir da vontade popular, não da manipulação por demagogos. Ele critica a desinformação que mantém a população dependente de promessas políticas e a falta de investimento em educação, que poderia libertar os cidadãos.

Recebi da Câmara de Vereadores de São Paulo o título de Cidadão Paulistano. Eu tinha 13 anos quando meu pai voltou dos festejos do IV Centenário de São Paulo, trazendo para mim uma camisa toda estampada com o brasão do município, com os dizeres “Non ducor, duco“. No meu latim de terceiro ginasial, consegui traduzir: “Não sou conduzido, conduzo”. Perfeito para São Paulo, que é o condutor do país. Mas isso deveria servir para cada brasileiro. Afinal, é princípio do regime democrático, e primeiro artigo da Constituição Brasileira, que o poder emana do povo. O povo conduz, não é conduzido. Se for conduzido, não é povo, mas rebanho. Uma frase tão forte quanto o dístico de Ordem e Progresso. Deveria estar na cabeça de cada brasileiro, para que se confirme como cidadão.

Brasão da cidade de São Paulo | Foto: Montagem Revista Oeste/Wikimedia Commons

O que se vê é o povo sendo conduzido. É o que tenho visto por toda a vida. Pela falta de conhecimento, pela desinformação, multidões de milhões são mantidas na dependência de demagogos que manipulam suas vontades, ou os ensinam a não ter vontade, além da vitória de seu time de futebol e da alegria de ter algum sonho singelo de consumo atendido. Trocam-se votos por par de chinelos ou de óculos, dentadura, material de construção, Bolsa Família. E as lendas correm, difundindo as bondades desse político ou daquele “coronel”. O resto, Deus dará.

Os populistas no governo não investem no ensino e no conhecimento, porque seria dar liberdade ao povo cativo, às decisões do eleitor. O ensino que aprovam não é das letras, números e ciências. Ironicamente, é o ensino de Paulo Freire, que prega a libertação contra a opressão. E prepara as pessoas oprimidas pela demagogia para serem massa de voto que mantém o poder do populista esperto e opressor. Além de usar o voto desse povo, usam as estatais pertencentes ao povo para se fortalecerem e garantirem munição das batalhas eleitorais. Gramsci pregou a conquista de corações e mentes pelo uso de argumentos inteligentes. No Brasil, o jogo nem exige inteligência na enganação simplória, que é aceita por quem só tem necessidades, sem noção de seus poderes e direitos. Basta assustar o eleitor com o perigo de acabar o Bolsa Família, o SUS e o vale-gás e está comprado o voto com a moeda da mentira.

Celular conectado ao aplicativo Bolsa Família, programa de ajuda financeira para brasileiros de baixa renda | Foto: Shutterstock

No período da pandemia, foi posto em prática o sistema de controle pelo medo. Um vírus desconhecido, covas já abertas à espera do seu corpo e você paralisado pelo pânico, fazendo tudo o que a mídia colaborativa mandava. Os artistas mandavam você ficar em casa. Você tinha que trabalhar, vender, produzir, mas tinha medo do vírus, da polícia, do repórter vigilante, enquanto a mídia avisava que não tinha remédio. E você fez tudo o que mandaram. Enquanto isso, os demagogos ganhavam dinheiro com os ventiladores, as internações, as mortes por dengue e coração registradas como covid-19. Só perdia você, em renda, produção, vendas, saúde mental e física, e pessoas queridas. A TV tratou você como ovelha do rebanho.

No mesmo dia em que o vereador Adrilles Jorge me entregou o diploma de Cidadão Paulistano, recebi o Prêmio Liberdade de Imprensa 2026, do Instituto Formação de Líderes, no evento Caminhos da Liberdade. Lembrei como é difícil contar com liberdades garantidas pela Constituição. Basta o governo cortar verbas publicitárias de uma centena de rádios, e elas, alegando, com justiça, “razões financeiras”, cortam o comentarista que estiver desagradando o governo, por se basear em fatos e não em militância. Aliás, se o governo precisa de propaganda, é porque seu produto, os serviços públicos, é ruim. A propaganda que faz é enganosa, mas serve para comprar a linha editorial que decide o que pode ser noticiado ou não. Evita que cheguem más notícias ao eleitor que só se informa — desinformando-se — por aquele meio.

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Por isso, os demagogos não gostam do novo mundo digital, em que as pessoas se informam pelo celular. E usam as redes para expor suas reclamações, suas opiniões. É a voz do povo, diferente da mídia domesticada. O governo usa desvãos da censura contra as redes e, claro, tem apoio da mídia que perde audiência. Mas o celular sozinho não vai nos salvar do domínio da demagogia. O que salva é o ensino que desperta a descoberta de que o conhecimento liberta. O que não vai acontecer se eleições não anularem a origem da tutela. Porque no mundo justo e livre de uma democracia, não há lugar para falsos condutores. O líder verdadeiro é conduzido pela vontade de seu povo.

Leia também “Os genocidas”

5 comentários
  1. Maria Cristina Agostini
    Maria Cristina Agostini

    Cristina Agostini

    Aleandre, vc já ouviu falar em um livro chamado “ the shock doctrine”?
    Foi publicado pouco depois do 11 de setembro e explicava como se aproveitar de um fato impactante para legislar e controlar uma população em estado de choque .
    É uma teoria bastante interessante

  2. Marcos Heluey Molinari
    Marcos Heluey Molinari

    O artigo é bom. Mas cadê o Alexandre Garcia de duas semanas atrás, aquele que detonava Flávio Bolsonaro, o único capaz de nos livrar das mazelas do artigo acima, dos populistas, da esquerda nefasta, para exaltar Caiado, o candidato da direita limpinha, que finge ser contra o sistema, mas é agente dele. Explica aí, Alexandre! Você está de que lado? Você quer mesmo tirar os populistas da frente? Parece que não. Você ainda acha que o Caiado é a solução? Cara, tô ficando de saco cheio e burrice tem limite…

  3. Joel Luiz Oliveira Rios
    Joel Luiz Oliveira Rios

    ESTE EXCELENTE ARTIGO DO TAMBÉM EXCELENTE JORNALISTA ALEXANDRE GARCIA DESCORTINA PARA TODOS OS BRASILEIROS A SOLUÇÃO NO CURTO, MÉDIO E LONGO PRAZOS PARA QUE POSSAMOS NOS LIVRAR DOS POLÍTICOS DEMAGOGOS, POPULISTAS DA ESQUERDA BRASILEIRA, COMO TAMBÉM DO CENTRÃO LADRÃO, LIDERADO PELOS CANALHAS E CAFAGESTES DE PLANTÃO, OS QUAIS FICAM EM CIMA DO MURO PARA O QUEM DÁ MAIS CARGOS E MINISTÉRIOS, QUE SIGNIFICAM PODER E DINHEIRO. ACORDEM ELEITORES BRASILEIROS, OU CONTINUAREMOS NA MERDA DO EXPRESIDIÁRIO PARA SEMPRE SEM FIM. OBS; NÃO DIGA AMÉM!

  4. fabio de souza arcas
    fabio de souza arcas

    Mais um artigo impecável do jornalista autêntico Alexandre Garcia. Muito obrigado pelo texto.

  5. Osmar Martins Silvestre
    Osmar Martins Silvestre

    Caro Alexandre Garcia, ontem, dia 13/08/2026, você foi reconhecido como cidadão paulistano. Eu sou paulistano “desde que nasci” e me orgulho de tê-lo como nosso conterrâneo, nosso “conhecido do bairro”. Eu, como você, isto é uma verdade e uma orientação de vida: “Non Ducor, Duco”. Poucas coisas, ou talvez nenhuma, represente tão bem o cidadão consciente, o cidadão que constrói o país. Parabéns.

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