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Os chefes de Estado do Brasil e da Argentina, Lula e Javier Milei, em evento oficial | Foto: Matias Baglietto/REUTERS
Edição 335

Só verdades

As diferenças entre franqueza, polidez e pusilanimidade costumam ser sutis

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

O artigo discute a complexidade da sinceridade na política, exemplificada pela ofensa do presidente argentino Milei ao presidente Lula. O autor reflete sobre a diferença entre franqueza e polidez, argumentando que a verdade não deve ser dita indiscriminadamente, especialmente em contextos sociais e políticos. Ele critica a autocensura em regimes autoritários e observa que, mesmo em sociedades livres, existem subculturas onde a expressão da verdade pode ser perigosa.

Quando um político ofende outro — como o presidente Milei ofendeu recentemente o presidente Lula —, na maioria das vezes ele está dizendo algo verdadeiro ou, no mínimo, bem próximo da verdade: ainda que, infelizmente, também seja com frequência o caso de um sujo falando de um mal lavado. Não buscamos santidade em nossos políticos. São pouquíssimos os seres humanos contra os quais não se possa levantar acusações verdadeiras. E, quando o assunto é roubo, Milei faria melhor em olhar mais para o próprio quintal, onde sua autoridade para denunciá-lo é maior — e onde, sem dúvida, existe. Mas é sempre mais gratificante contemplar as falhas e irresponsabilidades alheias do que as nossas próprias.

As diferenças entre franqueza, polidez e pusilanimidade costumam ser sutis. Algumas pessoas interpretam a regra moral de sempre dizer a verdade como a obrigação de sempre revelar o que pensam sobre determinado assunto ou determinada pessoa. Ou seja, não como o dever de sempre dizer a verdade quando questionadas, mas de sempre dizer verdades, independentemente de alguém tê-las perguntado ou não.

Javier Milei discursa durante convenção do PL em ato de apoio a Flávio Bolsonaro | Foto: Jean Carniel/REUTERS

A polidez, no entanto, exige a supressão dos pensamentos mais íntimos. Um homem pode perfeitamente dizer à esposa o que realmente acha de seu vestido (é provável que ela deseje sua opinião sincera), mas não o que acha do vestido da anfitriã numa festa.

Assim como conheci pessoas que, por covardia e pusilanimidade, abstiveram-se de dizer a verdade, conheci também aquelas incapazes de distinguir quando dizer a verdade é — ou não é — moral e socialmente apropriado, e que insistem numa espécie de franqueza brutal que confundem com sinceridade. Immanuel Kant talvez as tivesse aprovado. Foi ele quem sustentou, de modo célebre, que dizer a verdade em todas as ocasiões — até mesmo a um assassino à procura de sua vítima — era um imperativo categórico, porque não fazê-lo seria tratar a outra pessoa, o interlocutor, não como um ser humano autônomo, mas como um instrumento para os próprios fins, e porque mentir não pode ser um princípio universal da conduta humana. Mesmo ele, porém, não afirmou que a verdade deva sempre ser dita espontaneamente, até quando não solicitada. Na União Soviética, contudo, o conceito de dizer a verdade promovido nas escolas era o de delatar amigos ou outras pessoas que pudessem ter dito algo antissoviético.

Quer a opinião de que se deve dizer a verdade sempre, até mesmo a um assassino em busca de sua vítima, seja ou não a interpretação correta do célebre ensaio de Kant Sobre o Suposto Direito de Mentir por Amor à Humanidade, minha própria visão sobre dizer a verdade é um tanto mais tranquila — ou, como prefiro dizer, flexível. É claro que parto de uma predisposição a favor de dizer a verdade, mas creio que nenhum profissional da medicina poderia considerar dizer a verdade um dever absoluto em todas as circunstâncias. Um médico frequentemente precisa segurar a língua durante as consultas com pacientes, mesmo quando o paciente lhe faz perguntas.

Isso me leva naturalmente ao tema da autocensura. De modo geral, a autocensura no mundo ocidental tem má reputação, pois é vista como uma extensão insidiosa da censura estatal — como, de fato, pode ser. Por exemplo, num país comunista, as pessoas eram muito cuidadosas com o que diziam para evitar a delação, inclusive por membros da própria família, e a consequente punição oficial. Na verdade, as coisas eram muito piores que isso: não havia apenas coisas que não podiam dizer (isso é comum a todos os regimes autoritários), mas havia coisas que eram obrigadas a dizer — o que é muito pior, ainda mais porque as coisas que eram obrigadas a dizer eram mentiras óbvias. Não há melhor maneira de destruir a integridade de uma pessoa, e portanto sua capacidade de resistir ao mal, do que fazê-la repetir em público coisas que sabe serem falsas — e não apenas falsas, mas quase o oposto exato da verdade.

Foto de Li Zhensheng registra a humilhação pública na China durante a Revolução Cultural de 1966, ilustra o perigo da censura estatal e da autocensura em regimes comunistas | Foto: Wikimedia Commons

Mas o tipo de autocensura natural e necessária nas sociedades autoritárias não é o único, nem mesmo o principal, nas sociedades livres. É verdade que, dentro das sociedades livres, existem frequentemente subsociedades em que vigora o mesmo tipo de autocensura necessário nas sociedades autoritárias: percebi isso, por exemplo, na Inglaterra, nos guetos muçulmanos que se formaram em muitas de suas cidades. Para uma pessoa que vive num desses guetos, dizer que Deus não existe e que, portanto, Maomé não poderia ser seu profeta, equivaleria à morte social — e possivelmente até literal: por isso, as dúvidas sobre a verdade ou as verdades do Islã precisavam ser mantidas estritamente no âmbito privado. Mas esse não é tipo de autocensura, ou não deveria ser, que se deve exercer numa sociedade livre.

Nossos primeiros pensamentos nem sempre são os melhores. A rigor, deveria dizer que os meus nem sempre são os melhores, já que não tenho acesso aos de mais ninguém, mas duvido que isso se aplique só a mim. É certamente um sinal de maturidade perceber isso. Na minha juventude, fui aconselhado a nunca escrever uma carta com raiva, mas a esperar pelo menos 24 horas antes de me comprometer com o indelével.

Na era das redes sociais — ou antissociais —, esse conselho é tão relevante quanto o de que um homem deve sempre tirar o chapéu ao passar por uma dama. (Minha mãe me ensinou que um cavalheiro sempre caminhava pelo lado de fora da calçada quando acompanhava uma dama, e até hoje me sinto profundamente desconfortável quando não o faço, como se estivesse sendo terrivelmente grosseiro ou deselegante, embora tenha de confessar que a maioria das mulheres não faz ideia de por que estou tão ansioso para caminhar do lado da sarjeta — como se eu tivesse um tique peculiar ou um problema psiquiátrico.) Grande parte dos comentários nas redes sociais é ofensiva, como se a ofensa — esse fruto podre dos primeiros pensamentos — fosse a forma mais elevada do discurso.

O presidente Milei não serviu nem à Argentina nem ao Brasil ao deixar de se autocensurar, ainda que as relações comerciais — que provavelmente valem muito mais do que as finezas diplomáticas — permaneçam inalteradas. Não obstante, há perigos na palavra desenfreada, tanto na esfera privada quanto na pública. 

A falta de autocensura de Milei afeta a esfera diplomática, mas as parcerias comerciais de maior peso financeiro permanecem | Foto: REUTERS/Jean Carniel

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6 comentários
  1. Claudia Aguiar de Siqueira
    Claudia Aguiar de Siqueira

    Conceitualmente, você tem toda razão, mas, para a imensa quantidade de brasileiros enojados com o Lula, equivalente ao menos à metade da população, ouvir Milei bradando verdades inconvenientes foi um bálsamo.

  2. Renato Perim
    Renato Perim

    Absolutamente esquizofrênica essa coluna do Theodore. Parece até mais um retardado da mídia mainstream (eu sei que ele não é), de tão ofendido que ficou porque Milei chamou o lula do que ele é: um ladrão. Muito pior do que isso são as coisas que o encantador de jumentos fala todo dia mas ninguém repreende. Me decepcionou, nota zero para a matéria.

  3. João Luiz Bosso
    João Luiz Bosso

    Admiro a honestidade das palavras que usou em seu artigo, Theodore. Realmente você tem razão, Milei tem acusações contra ele que, por mais que queiramos ignorar, por ser ele do nosso espectro político, não devemos esquecer, nem relativizar, como faz a esquerda. Nosso intuito, dos que somos da direita, é sempre dizer que, seja quem for, se tiver um delito, deve pagar.
    Claro que a tendência humana é proteger quem nos é afim, mas a verdade vale mais do que ocultar e fingir que coisas erradas não existem.
    Cada um vai dar conta de seus erros.
    Só para deixar registrado, apesar do que pode vir a acontecer com Milei, se tudo vier à tona e for confirmado, o que ele disse sobre o larápio-mor do Brasil, é verdade.

  4. CLAUDIO A S BAPTISTA
    CLAUDIO A S BAPTISTA

    “A VERDADE SEMPRE DÓI ” É SIMPLES ASSIM
    MILEI FALOU POR NÓS

  5. Claudio Sehnem
    Claudio Sehnem

    é que o milei nao pode ser preso ou investigado pela pf cachorrinha do xandão….. que bom que alguém fala abertamente

  6. Olnei Pinto
    Olnei Pinto

    As palavras do Presidente Milei para nós que conhecemos o Larápio não surpreendeu. O velho ditado ,”Quem fala a verdade não merece castigo .

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