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O Vale do rio São Francisco comemora os primeiros embarques de uvas frescas com tarifa zero para a União Europeia e a isenção de sobretaxas dos EUA, em um cenário de reconfiguração do comércio internacional de frutas no segundo semestre de 2026. A transformação da irrigação na região, antes dependente de projetos estatais, agora é impulsionada por investimentos privados e inovações da Embrapa, resultando em um faturamento de mais de R$ 3 bilhões em 2025.
O Vale do rio São Francisco celebra os primeiros embarques de uvas frescas com tarifa zero para a União Europeia e o alívio do risco de sobretaxas norte-americanas sobre as frutas brasileiras. O comércio internacional de manga e uva vive um momento dinâmico e de reconfiguração estratégica neste segundo semestre de 2026. O setor mantém intensa movimentação cambial e logística, após consolidar marcas históricas de embarques internacionais no primeiro semestre. Como explicar esse sucesso no sertão nordestino?
No passado, a irrigação no semiárido dependia essencialmente de projetos estatais do DNOCS e da CODEVASF, com pouquíssima participação do setor privado. Mudanças nos paradigmas da irrigação, investimentos privados e novas técnicas e tecnologias desenvolvidas, sobretudo pela Embrapa, transformaram essa realidade.
Eu vivi, como pesquisador, intensamente o início desse processo. Em 1980, fui contratado para trabalhar na construção do centro de pesquisas da Embrapa Semiárido em Petrolina, em Pernambuco, no vale do rio São Francisco. Por quase uma década, participei da contratação de equipes, instalação de laboratórios e coordenação dos programas de pesquisa.

Muita gente vaticinava contra os investimentos em pesquisa com a irrigação: não vai dar certo, há risco de salinizar os solos; exige investimentos muito altos e inexistentes; não há cultura técnica na região; não há experiência, nem mão de obra adequada para isso; essa proposta não respeita, nem valoriza os conhecimentos e saberes tradicionais da caatinga etc.
Empreendedores, ao investir nesse processo, eram tratados de “coronéis sem patente” e promotores da “modernização conservadora e excludente do sertão”. Uma espécie de delito não tipificado, com chances de configurar crime. As previsões negativas e obscurantistas não se confirmaram.
A Embrapa não trouxe técnicas do Neolítico. Com ciência, tecnologia e empreendedorismo privado, o polo de produção frutícola do Vale do São Francisco emergiu. Em 2025, seu faturamento superou 3 bilhões de reais. Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia, formam hoje uma potência agrícola do Nordeste. Um exemplo real, não retórico ou eleitoreiro, de combate efetivo à pobreza.
De acordo com dados da Embrapa Semiárido, da Valexport e do Cepea, em 2025, o Vale do São Francisco produziu cerca de 1,25 milhão de toneladas de manga, 67,5% de toda a produção nacional da fruta. A região concentrou mais de 75% da produção nacional de uvas finas de mesa.

O Vale respondeu por 90% da manga e 98% da uva exportadas pelo Brasil. Os embarques de manga alcançaram cerca de 253 mil toneladas e geraram uma receita cambial de US$ 348 milhões. Os principais mercados foram Holanda, Espanha e EUA. O volume exportado de uvas foi quase o dobro do ano anterior e gerou US$ 31,5 milhões de dólares.
Neste segundo semestre de 2026, o comércio internacional do Vale vive um momento de reconfiguração estratégica com a Tarifa Zero da Europa em suas exportações, graças ao acordo com o Mercosul, e a isenção das frutas de sobretaxas no pacote de tarifas aplicado pelos EUA ao Brasil.
A eliminação da antiga tarifa de 12% sobre as importações europeias de frutas brasileiras, efetivada de forma imediata em 1º de maio de 2026, colocou o Vale em igualdade competitiva com produtores globais, como o Chile e a África do Sul. Como a Europa absorve entre 75% e 85% do volume de uva exportado pela região, a margem financeira dos produtores locais melhorou significativamente.
Fortes temores de protecionismo e potenciais sobretaxas por parte dos EUA assombraram o setor. Finalmente, as frutas do Vale do São Francisco foram poupadas do pacote de tarifas anunciado pelo governo dos Estados Unidos. A dependência do mercado norte-americano do fornecimento brasileiro na janela do segundo semestre pesou a favor e garante o fluxo normal de envios.
Em agosto, o polo de fruticultura registra altos índices de insolação e chuvas praticamente nulas. A ausência de precipitações reduz drasticamente a incidência de doenças fúngicas e bacterianas nas videiras e mangueiras. Toda a água necessária aos cultivos é fornecida via irrigação controlada.
Estudos recentes de clima e ocupação das terras no polo indicam: a expansão da fruticultura irrigada altera o microclima local, reduz a amplitude térmica diária, suaviza a velocidade dos ventos e gera um ambiente altamente favorável e previsível dentro dos pomares.
Esse ambiente de sol pleno e estiagem permite aos agrônomos orientar a aplicação de reguladores de crescimento. A suspensão controlada da irrigação permite induzir a floração exatamente no momento planejado e programar a produção para o pico das exportações dos próximos meses.
A fruticultura irrigada é uma atividade intensiva em mão de obra e altamente manual (poda fina, raleio de cachos, colheita seletiva e seleção no packing house). A cadeia produtiva total da região sustenta cerca de 250 mil empregos diretos e 950 mil empregos indiretos. Apenas o manejo diário nos pomares de manga e parreirais de uva mantém mais de 120 mil trabalhadores com empregos fixos ao longo do ano.

Na região vive-se um cenário de inversão do êxodo rural. Diferente do modelo de sequeiro tradicional do Nordeste, a fruticultura irrigada garante colheitas o ano inteiro. Isso estabiliza a renda do trabalhador e atrai profissionais qualificados para o semiárido. Empresários e confederações agrícolas no Nordeste, como a CNPL, indicam dificuldade crescente para preencher vagas formais na safra de uva e manga. Trabalhadores temporários manifestam receio de perder o benefício do Bolsa Família ao assinarem contratos formais de curto prazo. Um levantamento da Esalq/USP analisou polos de irrigação em quatro estados e identificou neles menor dependência de programas de transferência de renda.
O PIB gerado pelo setor irriga o comércio local, o setor de serviços, a construção civil e a hotelaria das cidades. A região transformou-se em um polo acadêmico e de biotecnologia voltado ao campo. Atrai investimentos internacionais em logística de frio e insumos agrícolas de ponta.
O clima semiárido não é uma sentença de fracasso na agricultura. Com água, ciência e empreendedorismo, ele é o grande motor de produtividade do polo de fruticultura no Vale. O rio São Francisco é essencial e pode atender a múltiplos propósitos: irrigação, geração de energia elétrica, navegação, abastecimento urbano e outros. A transposição de suas águas, posterior à implantação do polo de irrigação e contra a qual até greve de fome aconteceu, atende hoje cerca de 12 milhões de pessoas em 396 municípios em quatro estados (Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional).
Esses são os frutos das barragens, da gestão da água do rio São Francisco, do empreendedorismo privado, da ciência e da tecnologia, apesar de todos os vaticínios ideológicos e arengas contra o agronegócio, a agricultura moderna e a expansão da irrigação por parte de tantos Velhinhos do Restelo Brasil afora (Os Lusíadas, Canto IV, estrofes 94 a 104).
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