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Multidões de manifestantes cercam tanques soviéticos durante os primeiros dias da invasão da Tchecoslováquia | Foto: Wikimedia Commons
Edição 336

Imagem da Semana: resistência sem armas

A invasão da Checoslováquia pelo Pacto de Varsóvia abalou o bloco soviético

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Na madrugada de 21 de agosto de 1968, a Checoslováquia foi invadida por cerca de 200 mil soldados e mais de 2 mil tanques do Pacto de Varsóvia, encerrando a Primavera de Praga, um movimento de reformas liderado por Alexander Dubček que buscava um "socialismo com rosto humano". A invasão, motivada pelo temor soviético de que as reformas inspirassem outros países do bloco, não encontrou resistência armada, mas gerou significativa resistência civil.

Na madrugada de 21 de agosto de 1968, o céu sobre Praga se encheu de aviões de soviéticos. Em questão de horas, cerca de 200 mil soldados e mais de 2 mil tanques do Pacto de Varsóvia cruzaram as fronteiras da Checoslováquia, pondo fim abruptamente a um dos experimentos políticos mais ousados do bloco comunista: a chamada Primavera de Praga.

Em janeiro de 1968, Alexander Dubček assumiu a liderança do Partido Comunista da Checoslováquia e iniciou um programa de reformas batizado de “socialismo com rosto humano”. As mudanças incluíam maior liberdade de imprensa, redução da censura, abertura ao debate público e uma tentativa de descentralizar a economia planificada. Para os padrões do Pacto de Varsóvia, tratava-se de uma ruptura significativa — não uma rejeição do comunismo, mas uma tentativa de humanizá-lo e torná-lo mais responsivo à população.

O movimento ganhou entusiasmo popular rapidamente. Intelectuais, estudantes e trabalhadores viram nas reformas de Dubček uma janela de esperança depois de duas décadas de rigidez stalinista. Jornais passaram a publicar críticas antes impensáveis, enquanto debates públicos floresciam em universidades, fábricas e organizações civis.

Alexander Dubček, chefe de Estado da antiga Checoslováquia, mundialmente conhecido por liderar a Primavera de Praga em 1968 | Foto: Wikimedia Commons

Para a liderança soviética, encabeçada por Leonid Brejnev, esse afrouxamento representava um grande risco. O temor não era apenas ideológico: havia preocupação concreta de que reformas na Checoslováquia inspirassem movimentos semelhantes na Polônia, na Hungria e até dentro da própria União Soviética (URSS), ameaçando a coesão do bloco durante a Guerra Fria.

Depois de meses de pressão diplomática, ultimatos e negociações fracassadas — incluindo o encontro de Čierna nad Tisou, em que líderes soviéticos e checoslovacos discutiram pessoalmente a crise —, Moscou decidiu agir pela força. A invasão foi respaldada pelo que ficaria conhecido como “Doutrina Brejnev”, segundo a qual a URSS tinha o direito de intervir militarmente em qualquer país socialista cujo rumo político, na visão do Kremlin, ameaçasse o conjunto do bloco.

Na noite de 20 para 21 de agosto de 1968, tropas da União Soviética, da Polônia, da Hungria e da Bulgária invadiram a Checoslováquia em uma operação coordenada, chamada de Operação Danúbio. A Alemanha Oriental também participou dos preparativos, mas teve presença limitada no combate por razões ligadas à memória da ocupação nazista. A operação foi uma das maiores mobilizações militares na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Manifestação em Helsinque, Finlândia, contra a invasão | Foto: Wikimedia Commons

Diferentemente do que os planejadores soviéticos esperavam, não houve resistência armada organizada. O governo checoslovaco optou por não lutar, para evitar um banho de sangue e a destruição do país. Mas a resistência civil foi notável: cidadãos trocaram placas de ruas para confundir as tropas invasoras, pintaram mensagens e símbolos de protesto em tanques e tentaram convencer soldados soviéticos — muitos dos quais mal sabiam onde estavam ou por que haviam sido enviados — a não obedecer às ordens. Pelo menos 137 checoslovacos morreram nos confrontos e protestos que se seguiram.

Dubček e outros líderes reformistas foram presos e levados à força para Moscou, onde, sob intensa pressão, foram obrigados a assinar o Protocolo de Moscou que revertia gradualmente as reformas. Ele manteve o cargo por alguns meses, mas de forma esvaziada, até ser substituído em abril de 1969 por Gustáv Husák, que conduziria o país por um longo período conhecido como “normalização” — a reversão sistemática das mudanças da Primavera de Praga e um retorno ao controle rígido do partido.

A repercussão internacional foi expressiva. A invasão chocou o mundo e provocou condenação até de partidos comunistas ocidentais, como os da Itália e da França, que romperam publicamente com Moscou nesse episódio — um prenúncio do que depois seria chamado de “eurocomunismo”. Dentro da própria URSS, um pequeno grupo de dissidentes protestou na Praça Vermelha em 25 de agosto de 1968, em um gesto de coragem que resultou em prisões e internações psiquiátricas forçadas.

O episódio também marcou profundamente a sociedade checoslovaca. A imagem de um jovem ateando fogo ao próprio corpo — Jan Palach, em janeiro de 1969, na Praça Wenceslau, em protesto contra a ocupação e a apatia crescente — tornou-se um símbolo duradouro de resistência moral diante da força militar.

Milhares se reúnem na Praça Wenceslau, em Praga, no dia do funeral de Jan Palach (1969) | Foto: Wikimedia Commons
Primeira página da Folha de S.Paulo de 26 de janeiro de 1969 | Foto: Reprodução/Folhapress

A doutrinação política soviética sobre a Checoslováquia só terminaria com a Revolução de Veludo, em novembro de 1989, parte da onda de movimentos que varreu regimes comunistas na Europa Oriental naquele ano. De forma notável, a transição checoslovaca foi pacífica — daí o nome “de veludo” — e teve à frente figuras como o dramaturgo e ex-dissidente Václav Havel, que se tornaria o primeiro presidente do país pós-comunista. As últimas tropas soviéticas, contudo, só deixariam o país em junho de 1991.

Poucos anos depois, em 1º de janeiro de 1993, a Checoslováquia deixou de existir como Estado unificado. Numa separação também pacífica, apelidada de “Divórcio de Veludo”, o país se dividiu em duas nações independentes: a República Checa e a Eslováquia — um desfecho que contrasta fortemente com a violência e a repressão que haviam marcado o destino do país 25 anos antes.

A invasão de 1968 permanece como um dos exemplos mais claros de como o bloco soviético lidava com qualquer sinal de autonomia entre seus satélites. O episódio também deixou um legado de resistência silenciosa e criativa que, décadas depois, ajudaria a alimentar o processo que finalmente libertaria a Checoslováquia do domínio soviético.


Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante da semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.

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3 comentários
  1. Jan Heller
    Jan Heller

    Agradeço à autora Daniele por este artigo. Sou de Praga, da República Tcheca, da antiga Tchecoslováquia. Sabe, sobre o meu país no meio da Europa não se publica muito frequentemente na imprensa estrangeira, e por isso fico ainda mais feliz quando encontro um artigo tão bem elaborado.
    Rezo e desejo que nas próximas eleições presidenciais o Brasil tenha a mudança que este país maravilhoso merece.

  2. João Luiz Bosso
    João Luiz Bosso

    Parabéns novamente, Daniela. Você ilumina essas janelas históricas de maneira concisa e interessante.
    A URSS queria impor seu regime a força para manter o bloco sob sua doutrinação.
    Hoje, o comunismo usa outras táticas; a China, por exemplo, vai utilizando espaços em outros países, não necessariamente vizinhos (o Brasil, por exemplo, fica um pouco longe…), e vai agindo de forma a dominar pela presença cada vez mais massiva.
    Já outros regimes como o do Irã e outros países islamitas, procuram dominar territórios com a “exportação” de seus cidadãos a ponto de serem uma enorme quantidade, de modo a tentar regularizar seus costumes em solo alheio. Veja-se o caso da Europa; sem falar nos terroristas que dominam pela força.
    Esperemos que nessas eleições possamos mudar essa aquiescência do atual governo para com países totalitários.

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